“As
pessoas não devem ter preguiça, pelo contrário,
devem lutar por aquilo que desejam e sempre almejar um degrau acima,
mais conhecimento e vivência”. É o que afirma
a artista uberabense Ana Teresa Resende Gonçalves, mais conhecida
como Anatê. Hoje, aos 36 anos, sem a visão e com outras
limitações físicas, ela é uma premiada
pintora no mercado nacional e internacional.
Apesar de ter nascido em Uberaba, Ana passou grande parte de sua
vida morando em Belo Horizonte. Foi na capital de Minas Gerais que
se formou em Decoração, em nível superior,
pela Fuma-Esap, atualmente Uemg (Universidade do Estado de Minas
Gerais), no ano de 1993. Ainda na fase universitária, Anatê
foi para Uberlândia, onde fez um curso de extensão
em pintura e escultura com Amílcar de Castro e Leda Catunda.
“Este foi meu primeiro contato com a pintura”, conta.
Como era um curso de extensão, Anatê teve a oportunidade
de conhecer a teoria da pintura. Com o término do curso,
pintou poucas vezes como hobby e foi se dedicar à carreira
de decoradora. Foi no dia 2 de novembro de 1995 que a vida dela
tomou um novo sentido. Após uma grave queda na cidade de
Belo Horizonte, ela se viu obrigada a passar por oito cirurgias,
com problemas principalmente nas pernas e pés. Entre uma
cirurgia e outra, ela ficou mais de dois anos em tratamento. “Como
sou diabética, tinha muita dificuldade para cicatrização”,
diz. Anatê explica que com tantas cirurgias, teve uma descompensação
do diabetes, o que afetou sua visão.
Com isso, em 98, começou outra série de cirurgias
para tentar recuperar a visão. “Da minha última
cirurgia saí cega, sem enxergar ao menos um feixe de luz”,
explica. Filha de um casal e médicos, Anatê recebeu
o melhor tratamento, tendo uma equipe à sua disposição,
no entanto, seu caso era irreversível.
Mundo
escuro – A artista passou o restante do ano de 1998 tentando
se adaptar à nova vida. Sem a visão, não podia
trabalhar mais como decoradora e tinha que arrumar uma nova ocupação.
“Tive um período de adaptação, mas logo
quis fazer algo, lutar para ter uma vida”, conta. Foi em 99
que arriscou a pintar seu primeiro quadro. De acordo com ela, não
tem uma explicação pr ter tido vontade de pintar.
“Acho que por falta de opção, decidi arriscar”,
cita. Segundo Anatê, o quadro foi encomendado por uma amiga
que guarda a obra até hoje em sua casa, na cidade de Varginha.
No segundo semestre deste ano, arriscou pintar mais três quadros.
Com gosto pela pintura cada vez maior, no ano de 2000 Anatê
aumentou sua produção, chegando a pintar seis telas.
Nesta época sua mãe Eleusa Resende Gonçalves,
tinha aposentado para acompanhar a filha em suas atividades. “Um
fato marcante foi que no fim de 2000 eu recebi a visita de uma amiga,
que disse que achava bonitinho eu conseguir pintar”, conta.
Ela nunca gostou que as pessoas sentissem pena da sua situação,
e isto serviu como um incentivo para que lutasse cada vez mais.
Carreira
– “Procurei informações para saber como
proceder para ter uma avaliação crítica do
meu trabalho”, conta. Anatê enviou fotos de seus quadros
para a Academia Brasileira de Arte, Cultura e História, mas
sem informar que era cega. Na verdade, ela diz que sempre que faz
inscrição para participar de algum salão ou
envia quadros para exposições, nunca conta que é
deficiente visual, ou seja, as pessoas só descobrem depois.
Resultado
– Logo que avaliou os quadros de Anatê, representantes
da Academia a convidaram para participar de uma exposição
no Vaticano, já no ano de 2001. “Com este convite,
a imprensa tomou conhecimento de meu trabalho, e antes da viagem
já fui convidada para duas exposições”,
explica. A primeira foi no Hotel Hilton Brasilton, em Belo Horizonte,
e a outra em São Paulo. Na viagem ao Vaticano, Anatê
teve a oportunidade de conhecer pessoalmente o para João
Paulo II. Esta foi a primeira de uma série de exposições
internacionais.
Depois que ela retorno do Vaticano, não parou mais de trabalhar.
Já participou de exposições no Canadá,
Estados Unidos, Paris, Madri, Londres, Lisboa, Atenas, Argentina
e Uruguai. Neste ano, pela segunda vez, representou o país
no Circuito Internacional de Arte Brasileira. Mesmo com tanto sucesso,
Anatê ainda que mais. Seu sonho é participar da Bienal
de Florença. Atualmente, a artista está com uma exposição
individual no Canadá, onde também tem obras expostas
em um Salão de Arte. No Brasil, seu trabalho poder ser visto
em várias cidades, e em Uberaba, na Casa do Folclore, no
período da Expozebu.
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A artista Ana Tereza Rezende
Gonçalves (Anatê) com sua coleção de
troféus.
Anatê
coleciona prêmios
Com tantas participações em salões, Anatê
coleciona prêmios. Ela lembra que o primeiro prêmio
foi a Grande Medalha de Ouro, um título único, que
recebeu em São Paulo. Nos prêmios internacionais, destaca-se
a Grande Medalha de Bronze, que recebeu em Miami. Anatê já
perdeu as contas de quantos prêmios e medalhas já recebeu
em sua carreira. No entanto, segundo ela, o momento mais marcante
foi quando recebeu o Título de Comendadora das Artes Plásticas
de Minas Gerais.
Ritmo
– Anatê sempre pinta com as mãos. Segundo ela,
gosta de colocar uma música e ir dançando no ritmo
e trabalhando as cores dos quadros. “Na maioria das vezes,
eu me desligo de tudo e vou acompanhando a música”,
diz. Em alguns casos, ela se inspira em lembranças do passado,
quando ainda tinha visão, como nos quadros “Tarde de
Inverno”, que retrata a sua lembrança da varanda de
sua casa em Belo Horizonte, e “Lembrança de uma gruta”.
Mãe
– Anatê avalia que sua mãe é seus olhos
quando visita uma exposição. “Ela vai me relatando
as obras e vou imaginando”, conta. Eleusa comenta que o trabalho
de Anatê foi uma grande oportunidade para conhecer o outro
lado da vida. “Antes, acredito que eu não via tudo
de bom que a vida pode proporcionar, sou muito feliz auxiliando
Anatê em sua pintura”, conclui. Mesmo com sua independência
artística, Anatê ainda lida com algumas limitações.
Uma delas é não poder participar de um júri
em salões de artes. Atualmente, quando não está
participando de exposições pelo Brasil e exterior,
Anatê reside em Uberaba. (JF)

Quadro "Paixão de
Cristo", premiado com o Troféu Alberto Santos Dumont
e Paleta de Ouro.oféu Alberto Santos Dumont e Paleta de Ouro.
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