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Arte do recomeço - Jornal de Uberaba - 22/08/2002

Matéria publicada no jornal "Jornal de Uberaba" em 22/08/2002

ARTE DO RECOMEÇO (Juliana Fidelis)

Anatê descobriu na pintura uma razão para viver.

“As pessoas não devem ter preguiça, pelo contrário, devem lutar por aquilo que desejam e sempre almejar um degrau acima, mais conhecimento e vivência”. É o que afirma a artista uberabense Ana Teresa Resende Gonçalves, mais conhecida como Anatê. Hoje, aos 36 anos, sem a visão e com outras limitações físicas, ela é uma premiada pintora no mercado nacional e internacional.
Apesar de ter nascido em Uberaba, Ana passou grande parte de sua vida morando em Belo Horizonte. Foi na capital de Minas Gerais que se formou em Decoração, em nível superior, pela Fuma-Esap, atualmente Uemg (Universidade do Estado de Minas Gerais), no ano de 1993. Ainda na fase universitária, Anatê foi para Uberlândia, onde fez um curso de extensão em pintura e escultura com Amílcar de Castro e Leda Catunda. “Este foi meu primeiro contato com a pintura”, conta.
Como era um curso de extensão, Anatê teve a oportunidade de conhecer a teoria da pintura. Com o término do curso, pintou poucas vezes como hobby e foi se dedicar à carreira de decoradora. Foi no dia 2 de novembro de 1995 que a vida dela tomou um novo sentido. Após uma grave queda na cidade de Belo Horizonte, ela se viu obrigada a passar por oito cirurgias, com problemas principalmente nas pernas e pés. Entre uma cirurgia e outra, ela ficou mais de dois anos em tratamento. “Como sou diabética, tinha muita dificuldade para cicatrização”, diz. Anatê explica que com tantas cirurgias, teve uma descompensação do diabetes, o que afetou sua visão.
Com isso, em 98, começou outra série de cirurgias para tentar recuperar a visão. “Da minha última cirurgia saí cega, sem enxergar ao menos um feixe de luz”, explica. Filha de um casal e médicos, Anatê recebeu o melhor tratamento, tendo uma equipe à sua disposição, no entanto, seu caso era irreversível.

Mundo escuro – A artista passou o restante do ano de 1998 tentando se adaptar à nova vida. Sem a visão, não podia trabalhar mais como decoradora e tinha que arrumar uma nova ocupação. “Tive um período de adaptação, mas logo quis fazer algo, lutar para ter uma vida”, conta. Foi em 99 que arriscou a pintar seu primeiro quadro. De acordo com ela, não tem uma explicação pr ter tido vontade de pintar. “Acho que por falta de opção, decidi arriscar”, cita. Segundo Anatê, o quadro foi encomendado por uma amiga que guarda a obra até hoje em sua casa, na cidade de Varginha. No segundo semestre deste ano, arriscou pintar mais três quadros.
Com gosto pela pintura cada vez maior, no ano de 2000 Anatê aumentou sua produção, chegando a pintar seis telas. Nesta época sua mãe Eleusa Resende Gonçalves, tinha aposentado para acompanhar a filha em suas atividades. “Um fato marcante foi que no fim de 2000 eu recebi a visita de uma amiga, que disse que achava bonitinho eu conseguir pintar”, conta. Ela nunca gostou que as pessoas sentissem pena da sua situação, e isto serviu como um incentivo para que lutasse cada vez mais.

Carreira – “Procurei informações para saber como proceder para ter uma avaliação crítica do meu trabalho”, conta. Anatê enviou fotos de seus quadros para a Academia Brasileira de Arte, Cultura e História, mas sem informar que era cega. Na verdade, ela diz que sempre que faz inscrição para participar de algum salão ou envia quadros para exposições, nunca conta que é deficiente visual, ou seja, as pessoas só descobrem depois.

Resultado – Logo que avaliou os quadros de Anatê, representantes da Academia a convidaram para participar de uma exposição no Vaticano, já no ano de 2001. “Com este convite, a imprensa tomou conhecimento de meu trabalho, e antes da viagem já fui convidada para duas exposições”, explica. A primeira foi no Hotel Hilton Brasilton, em Belo Horizonte, e a outra em São Paulo. Na viagem ao Vaticano, Anatê teve a oportunidade de conhecer pessoalmente o para João Paulo II. Esta foi a primeira de uma série de exposições internacionais.
Depois que ela retorno do Vaticano, não parou mais de trabalhar. Já participou de exposições no Canadá, Estados Unidos, Paris, Madri, Londres, Lisboa, Atenas, Argentina e Uruguai. Neste ano, pela segunda vez, representou o país no Circuito Internacional de Arte Brasileira. Mesmo com tanto sucesso, Anatê ainda que mais. Seu sonho é participar da Bienal de Florença. Atualmente, a artista está com uma exposição individual no Canadá, onde também tem obras expostas em um Salão de Arte. No Brasil, seu trabalho poder ser visto em várias cidades, e em Uberaba, na Casa do Folclore, no período da Expozebu.

 

A artista Ana Tereza Rezende Gonçalves (Anatê) com sua coleção de troféus.

Anatê coleciona prêmios

Com tantas participações em salões, Anatê coleciona prêmios. Ela lembra que o primeiro prêmio foi a Grande Medalha de Ouro, um título único, que recebeu em São Paulo. Nos prêmios internacionais, destaca-se a Grande Medalha de Bronze, que recebeu em Miami. Anatê já perdeu as contas de quantos prêmios e medalhas já recebeu em sua carreira. No entanto, segundo ela, o momento mais marcante foi quando recebeu o Título de Comendadora das Artes Plásticas de Minas Gerais.

Ritmo – Anatê sempre pinta com as mãos. Segundo ela, gosta de colocar uma música e ir dançando no ritmo e trabalhando as cores dos quadros. “Na maioria das vezes, eu me desligo de tudo e vou acompanhando a música”, diz. Em alguns casos, ela se inspira em lembranças do passado, quando ainda tinha visão, como nos quadros “Tarde de Inverno”, que retrata a sua lembrança da varanda de sua casa em Belo Horizonte, e “Lembrança de uma gruta”.

Mãe – Anatê avalia que sua mãe é seus olhos quando visita uma exposição. “Ela vai me relatando as obras e vou imaginando”, conta. Eleusa comenta que o trabalho de Anatê foi uma grande oportunidade para conhecer o outro lado da vida. “Antes, acredito que eu não via tudo de bom que a vida pode proporcionar, sou muito feliz auxiliando Anatê em sua pintura”, conclui. Mesmo com sua independência artística, Anatê ainda lida com algumas limitações. Uma delas é não poder participar de um júri em salões de artes. Atualmente, quando não está participando de exposições pelo Brasil e exterior, Anatê reside em Uberaba. (JF)

Quadro "Paixão de Cristo", premiado com o Troféu Alberto Santos Dumont e Paleta de Ouro.oféu Alberto Santos Dumont e Paleta de Ouro.

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