Página inicial
Suas Telas
Suas Esculturas
Seu currículo
Entre em contato!
Esperança Pintada no Escuro - Estado de Minas - 15/01/2001

Matéria publicada no jornal "O Estado de Minas" em 15/01/2001

ESPERANÇA PINTADA NO ESCURO (Affonso de Souza)

Trabalhos da pintora Anatê, deficiente visual, vão ser expostos no Vaticano, em maio.

Alegre otimista, vaidosa e tremendamente contemporânea, a pintora e escultora Ana Teresa Resende Gonçalves, 34 anos, deficiente visual, vive uma emoção que muitos artistas famosos ainda não experimentaram: foi convidada a expor seus trabalhos no Vaticano. "A exposição vai ser em maio, já tenho nove telas prontas e vou fazer mais até fevereiro. Começo esta semana. A medida padrão do Vaticano é para quadros de 50 por 70 centímetros", conta, sorridente e feliz. Ana Teresa assina seus trabalhos com o nome artístico de Anatê. Em casa, para a família e os amigos, o apelido carinhoso é Tetê. 0 convite para esta exposição internacional foi para ela uma tremenda surpresa, porque nunca expôs em Belo Horizonte e nem em lugar nenhum. "Aqui na nossa terra existe muito preconceito", justifica sua ausência dos salões de arte. O convite para ir a Roma veio de Giovanni Nicotra, representante no Brasil da Ucai - União Católica de Artistas ltalianos. "Ele ficou conhecendo meu trabalho através de 13 fotografias coloridas. Entusiasmou-se e aprovou tudo, fazendo o convite", revela. A viagem para a Itália é um problema que Anatê ainda está tentando resolver. Não conseguiu até agora um patrocínio. Pela lei de incentivo à cultura demoraria no mínimo 75 dias para ser aprovada. "No Brasil, tudo é feito mesmo no sacrifício", comenta Juvercínio Gonçalves de Moraes, pai de Anatê, ao lado de sua mãe, Eleusa Resende Gonçalves. Ambos apóiam em tudo a filha, uma bonita mulher de 34 anos, que mora no alto do bairro Santa Lúcia.

Acidente
Anatê revela que pinta durante quatro horas por dia. Sua mãe é quem a assessora nas pinturas e esculturas, ao lado da artista plástica Regina Andrade, que é paga para atendê-la duas vezes por semana. "Não trabalho mais porque minha resistência é pouca. Tenho uma prótese na perna direita. De vez em quando tenho que usar uma cadeira de rodas", explica. "Sou diabética. Perdi a visão depois de um acidente em 1995. Saindo do almoço num restaurante, estava chovendo, escorreguei e na queda quebrei o colo do fêmur. Na colocação de uma prótese na perna, durante a cirurgia, tive uma lesão renal e perdi a visão. Fiz tratamento a laser mas a perda da visão foi gradativa. Sofri muito para aceitar e me adaptar ao grande problema surgido de repente". Antes de perder a visão, Anatê diplomou-se no curso de decoração da Fuma. Tinha muitos projetos de decoração para realizar, mas tudo ruiu diante da nova e dramática situação. A pintura surgiu como uma válvula de escape.
Anatê estudou com Leda Catunda e diz que "a noção de pintura que tenho obtive com ela".
Acrescenta que não tem tema fixo. A preocupação maior na sua pintura abstrata é explorar a cor. "Não me preocupo com a estética. Não tenho compromisso com a forma", revela. Anatê conta também que o assunto Vaticano vazou e ela recebeu dois convites antes de viajar para Roma. "Vou mostrar meus trabalhos numa exposição individual no Hotel Brasilton de Contagem, em fevereiro. Em março vou repeti-Ia no Brasilton de São Paulo." No trabalho de escultura, que desenvolveu num curso de extensão na Universidade Federal de Uberlândia, com aulas com Amilcar de Castro e Sérgio Romanollo, Anatê trabalha no tato, recortando placas de isopor. "Eu brinco com as formas até chegar onde quero. Pergunto à mamãe ou ao papai se está bom, bonito. A resposta é sempre carinhosa, de um ou de outro: `Beleza, filha!'. Depois desta fase preliminar, os recortes são arrumados e levados para uma oficina especializada, lá mesmo no bairro, e reproduzidos em aço. Fica tudo ok", entusiasma-se Anatê, completando: "Meu pai é algo discreto na avaliação dos meus trabalhos. Para ele tudo está `muito bem'. Mamãe é uma incentivadora exemplar. Mas é também de puxar orelha. Somos muito amigas, mas temos pontos de vista diferentes, que geram discussões amistosas e até gostosas".

Internet
Passando grande parte do dia ao telefone e no microfone da internet, Anatê até arranjou um namorado. Fala com ele em português e inglês, que estuda uma hora por dia com um professor particular. Ela conta que o namorado é o canadense Mathieu Medeiros, filho de portugueses e açorianos. "Ele tem 36 anos e é piloto de uma companhia aérea. No nosso papo, tiro as dúvidas dele da língua portuguesa e ele tira as minhas da inglesa. E ele ainda fala o francês e o espanhol." Anaté ama a música. "Adoro Nana Caymmi e Djavan. Me emociono com baladas, jazz e sambas-canções. No jazz, meu ídolo é o saxofonista Grover Washington. Detesto rock, que é barulhento e indefinido. Ouço música em CDs e no rádio. A Guarani FM é a minha preferida", confessa. "Não me descuido um minuto. Minha vida não parou. Continua", conclui, em plena forma física e artística.
 

Anatê tocando sua obra. Foto de Euler Junior.

Anatê, que fez sua primeira exposição no Brasil em fevereiro, sente a texura do quadro que pinta

Home | Telas | Esculturas | Mídia | Currículo | Contato