Alegre
otimista, vaidosa e tremendamente contemporânea, a pintora e escultora
Ana Teresa Resende Gonçalves, 34 anos, deficiente visual, vive uma
emoção que muitos artistas famosos ainda não experimentaram: foi
convidada a expor seus trabalhos no Vaticano. "A exposição vai ser
em maio, já tenho nove telas prontas e vou fazer mais até fevereiro.
Começo esta semana. A medida padrão do Vaticano é para quadros de
50 por 70 centímetros", conta, sorridente e feliz. Ana Teresa assina
seus trabalhos com o nome artístico de Anatê. Em casa, para a família
e os amigos, o apelido carinhoso é Tetê. 0 convite para esta exposição
internacional foi para ela uma tremenda surpresa, porque nunca expôs
em Belo Horizonte e nem em lugar nenhum. "Aqui na nossa terra existe
muito preconceito", justifica sua ausência dos salões de arte. O
convite para ir a Roma veio de Giovanni Nicotra, representante no
Brasil da Ucai - União Católica de Artistas ltalianos. "Ele ficou
conhecendo meu trabalho através de 13 fotografias coloridas. Entusiasmou-se
e aprovou tudo, fazendo o convite", revela. A viagem para a Itália
é um problema que Anatê ainda está tentando resolver. Não conseguiu
até agora um patrocínio. Pela lei de incentivo à cultura demoraria
no mínimo 75 dias para ser aprovada. "No Brasil, tudo é feito mesmo
no sacrifício", comenta Juvercínio Gonçalves de Moraes, pai de Anatê,
ao lado de sua mãe, Eleusa Resende Gonçalves. Ambos apóiam em tudo
a filha, uma bonita mulher de 34 anos, que mora no alto do bairro
Santa Lúcia.
Acidente
Anatê revela que pinta durante quatro horas por dia. Sua mãe
é quem a assessora nas pinturas e esculturas, ao lado da artista
plástica Regina Andrade, que é paga para atendê-la duas vezes por
semana. "Não trabalho mais porque minha resistência é pouca. Tenho
uma prótese na perna direita. De vez em quando tenho que usar uma
cadeira de rodas", explica. "Sou diabética. Perdi a visão depois
de um acidente em 1995. Saindo do almoço num restaurante, estava
chovendo, escorreguei e na queda quebrei o colo do fêmur. Na colocação
de uma prótese na perna, durante a cirurgia, tive uma lesão renal
e perdi a visão. Fiz tratamento a laser mas a perda da visão foi
gradativa. Sofri muito para aceitar e me adaptar ao grande problema
surgido de repente". Antes de perder a visão, Anatê diplomou-se
no curso de decoração da Fuma. Tinha muitos projetos de decoração
para realizar, mas tudo ruiu diante da nova e dramática situação.
A pintura surgiu como uma válvula de escape.
Anatê estudou com Leda Catunda e diz que "a noção de pintura que
tenho obtive com ela". Acrescenta
que não tem tema fixo. A
preocupação maior na sua pintura abstrata é explorar a cor. "Não
me preocupo com a estética. Não tenho compromisso com a forma",
revela. Anatê conta também que o assunto Vaticano vazou e ela recebeu
dois convites antes de viajar para Roma. "Vou mostrar meus trabalhos
numa exposição individual no Hotel Brasilton de Contagem, em fevereiro.
Em março vou repeti-Ia no Brasilton de São Paulo." No trabalho de
escultura, que desenvolveu num curso de extensão na Universidade
Federal de Uberlândia, com aulas com Amilcar de Castro e Sérgio
Romanollo, Anatê trabalha no tato, recortando placas de isopor.
"Eu brinco com as formas até chegar onde quero. Pergunto à mamãe
ou ao papai se está bom, bonito. A resposta é sempre carinhosa,
de um ou de outro: `Beleza, filha!'. Depois desta fase preliminar,
os recortes são arrumados e levados para uma oficina especializada,
lá mesmo no bairro, e reproduzidos em aço. Fica tudo ok", entusiasma-se
Anatê, completando: "Meu pai é algo discreto na avaliação dos meus
trabalhos. Para ele tudo está `muito bem'. Mamãe é uma incentivadora
exemplar. Mas é também de puxar orelha. Somos muito amigas, mas
temos pontos de vista diferentes, que geram discussões amistosas
e até gostosas".
Internet
Passando grande parte do dia ao telefone e no microfone da internet,
Anatê até arranjou um namorado. Fala com ele em português e inglês,
que estuda uma hora por dia com um professor particular. Ela conta
que o namorado é o canadense Mathieu Medeiros, filho de portugueses
e açorianos. "Ele tem 36 anos e é piloto de uma companhia aérea. No
nosso papo, tiro as dúvidas dele da língua portuguesa e ele tira as
minhas da inglesa. E ele ainda fala o francês e o espanhol." Anaté
ama a música. "Adoro Nana Caymmi e Djavan. Me emociono com baladas,
jazz e sambas-canções. No jazz, meu ídolo é o saxofonista Grover Washington.
Detesto rock, que é barulhento e indefinido. Ouço música em CDs e
no rádio. A Guarani FM é a minha preferida", confessa. "Não me descuido
um minuto. Minha vida não parou. Continua", conclui, em plena forma
física e artística.
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Anatê, que fez sua primeira
exposição no Brasil em fevereiro, sente a texura do
quadro que pinta
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